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sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Para minha avó ou Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores

Essa é uma daquelas reflexões de quarentena. É o que faz os dias de retorno a contemplação do mundo, vejam só...

Foi minha avó quem praticamente me criou, na verdade ela me criou e me aconselhou desde o dia em que nasci, até exatamente a última vez que ouvi sua voz.

Não tive mãe, pelo menos não no sentido simples e estreito da palavra, minha mãe estava viva, estava em casa, grande parte do tempo estava na mesma casa em que eu morava, mas passávamos a maior parte do tempo nos evitando. Para mim, ela era sinônimo de violência (muitas vezes extrema), descontrole, abusos e mentiras, para ela, não sei do que eu era sinônimo, mas não devia ser de algo bom. Dizem as histórias de família que havia um desagrado dela em relação a mim, desde antes de eu nascer e só depois de muitos anos, de muito trabalho, eu posso vir aqui falar disso abertamente e sem problemas...

Mas não vim falar de coisas tristes e nem de pessoas que não merecem ser mencionadas, vim falar de quem merece... Vim falar de dona Yolanda.

Nenhuma criatura no mundo me foi mais próxima do que ela e nenhum foi ser mais merecedor de ser chamado de mãe do que ela e eu tive a sorte de tê-la ao meu lado durante boa parte da minha vida.

Minha avó foi um dos seres mais honestos que conheci na vida. Pernambucana, gigante em seus 1,60m, cabelos prateados, olhos negros que parecia que eram feitos de carvão

Minha avó me ensinou a escrever... e datilografar, tudo em uma tacada só, ainda lembro da maquina Oliveti que hoje está na mesa do meu escritório e que passávamos a tarde digitando, até as juntas dos meus dedos ficarem doloridos, lembro do amor dela por plantas, plantas de todo tipo, por sinal as plantas e flores da foto são delas que meu tio cultiva até hoje. Lembro dela ter me passado o amor pela lua e pelas coisas que a maioria das pessoas não enxergam ao seu redor, o amor por histórias e pelas nossas raízes.

A última coisa que lembro da minha avó ter dito uma noite entes dela ir embora para nunca mais voltar foi que amava a todos os netos como se fossem seus filhos e queria que cuidássemos sempre uns dos outros.

Tenho saudades do dona Yolanda, mais saudades do que de todo o resto na vida, hoje conheço a mulher com quem quero passar o resto da vida e gostaria muito que ela pudesse te-la conhecido, gostaria muito de poder dizer a ela que finalmente estou longe da pessoa que me fez tanto mal na vida e há anos não a vejo, que tenho semeado coisas novas para o futuro e não olhado tanto para o passado e que o mundo anda uma loucura, mas até que tenho lutado com coragem e bem.

Coragem é claro que aprendi com ela e fazendo uso da integridade que ela me deu. Hoje muitas vezes conversando com meu enteado de 7 anos, me pego repetindo as mesmas palavras que ela me disse e acabo percebendo o quanto ele é parecido comigo quando tinha essa idade. Tudo são ciclos e a tudo os ciclos mudam.

sábado, 31 de maio de 2014

A vida é muito estranha, a vida é um susto, um soluço
De repente você se pega olhando pela janela em um dia qualquer
Percebe que seu coração jaz em pedaços
Alguns pedaços se foram pra muito longe
Alguns pedaços deixaram esse mundo
Outros fomos nós que deixamos pelo caminho
Por mágoa, pela promessa de coisas maiores ou por simples descuido
Outros param de ligar, param de nos procurar, param de esperar que um dia tenhamos tempo para eles
Os telefonemas param, as mensagens no meio da noite cessam
Os momentos findam
Não há mais troca de olhares, de mãos, de sorrisos ou de histórias
Apenas mais um cordão umbilical que se rompe
Outros cruzam com você pela rua as vezes, depois de anos
E nem sequer um olhar, um ato de reconhecimento daquilo que foi tão próximo
Esses são os pedaços que se tornam lascas
Lascas com pontas afiadas que ferem o resto de coração que ficou
Algumas dessas lascas nós deixamos espalhadas por aí
Não tentamos colar com medo da dor que nos trará
Simplesmente passamos a caminhar pelo mundo com um pedaço a menos
Alguns pedaços nem doem mais, são quase dormentes
Até que uma foto encontrada, uma perfume parecido ou o som de uma risada os trazem de volta
Ficamos em meio ao tempo pensando onde foram parar esses pedaços
O que estão fazendo?
Como vivem?
Com que outros pedaços, de outros corações não resolveram se juntar a fim de consertar as lascas perdidas do seu também.
Nos perdemos em passos, em ruas, em pensamentos
Nos perdemos entre o pó dos dias
Imaginando apenas aquilo que poderíamos ser, que poderíamos ter sido e tido
A sinceridade que deveria ter sido nossa
As possibilidades, as portas que deixamos de abrir
Para que nosso coração pudesse ver o Sol  desses dias e virassem as costas para tantos outros dias
Que das cinzas destas lacas de coração vieram a surgir.

sábado, 26 de maio de 2012

Eles morreram
Estão todos mortos
Meu país ruiu
Meus amores
Meus amigos
Todos se foram
Levaram minha fé consigo, meu coração
Tudo que nós fomos desapareceu
Tudo que nós amamos e o que nos fez sorrir desaparecerá
Pois quando eu deixar este mundo, não haverá mais ninguem que se lembre
Mais ninguem que chore por nossa ausência
Que pranteie pelo vácuo que deixamos no coração dos homens
Que proclame em recordações os nossos dias de glória.

Caminho pelos meu corredores e vejo estranhos
Vejo os filhos dos homens menores se banqueteando em nossas mesas
Cuspindo em nosso chão e em nossa memória
Rindo-se de nossa dor

Eles traem, mentem, roubam, são infiéis uns aos outros
Eles zombam de nossa finada honra
Usam palavras rudes, vozes vis, atos mesquinhos

A pérfida é sua pátria mãe
A injúria sua língua nativa
Atos mesquinhos seu modus operanti

Me pergunto pelo fim dos dias negros
Me recordo das manhãs de Sol
Lamento por um tempo onde as sombras eram apenas sombras
Sem forma, sem poder, sem voz
Um tempo em que elas não haviam dominado o mundo em que nasci
Um tempo em que a honra, a fraternidade e a alegria eram senhoras de tudo

domingo, 6 de novembro de 2011

A vida nada mais é do que uma encruzilhada, onde se tenta sempre achar o caminho de volta ao
lar, a felicidade da infância, ao conforto seguro e agradável dos braços de um amor.

Leonardo Pontual

domingo, 21 de agosto de 2011

Vergonha


Este enunciado é de autoria de RUY BARBOSA em 1914:

"A falta de justiça, Srs. Senadores, é o grande mal da nossa terra, o mal dos males, a origem de todas as nossas infelicidades, a fonte de todo nosso descrédito, é a miséria suprema desta pobre nação.

A sua grande vergonha diante do estrangeiro, é aquilo que nos afasta os homens, os auxílios, os capitais.

A injustiça, Senhores, desanima o trabalho, a honestidade, o bem; cresta em flor os espíritos dos moços, semeia no coração das gerações que vêm nascendo a semente da podridão, habitua os homens a não acreditar senão na estrela, na fortuna, no acaso, na loteria da sorte, promove a desonestidade, promove a venalidade, promove a relaxação, insufla a cortesania, a baixeza, sob todas as suas formas.

De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.

Essa foi a obra da República nos últimos anos. No outro regime (na Monarquia), o homem que tinha certa nódoa em sua vida era um homem perdido para todo o sempre, as carreiras políticas lhe estavam fechadas. Havia uma sentinela vigilante, de cuja severidade todos se temiam e que, acesa no alto (o Imperador, graças principalmente a deter o Poder Moderador), guardava a redondeza, como um farol que não se apaga, em proveito da honra, da justiça e da moralidade"

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Pois é...


Hoje eu acordo com meu primo me dando a noticia.
Vicente morreu.
Vicente era dono de um bar.
Era amigo nosso, era amigo de todo mundo.
Sua profissão era quase ser amigo de todo mundo.
Era careca, barbudo, cabeludo e magricela.
Era festeiro, as vezes boca suja, sempre guerreiro.
Passou os últimos anos servindo mesas, cantando e dando alegria.

Hoje o Vicente morreu e eu fico pensando no tempo.
Hoje o tempo amanheceu nublado, meio choroso, meio chuvoso.
O tempo vai passando e vamos nos tornando nossos pais.

Um dia você acorda e o Vicente morreu.
Um dia você acorda e a bunker vira Lojas Americanas.
Um dia você acorda o Balroom virou um prédio de apartamentos.
Os seus amigos ficam velhos e alguns ao partindo.

Um dia nossos pais acordaram e o Vinicius estava morto.
O John Lennon não saiu mais daquele quarto de hotel.
A Elis estava atrás da porta.
Por sinal foi ela que levantou a bola.
Como os nossos pais...

Hoje as 15:00 horas ele vai ser enterrado e nós nos perguntamos o que temos feito.
Como cultivamos nossos amigos.
Como decidimos quais são as nossas prioridades.

Trabalhar é importante.
Estudar nem se fala.
Ir pra um bar beber com os amigos é supérfluo.
Mas você entra num bar, é servido por um Vicente e vive momentos únicos com seus amigos.

Um brinde ao Vicente.
Que esteja onde estiver seja open bar.
E que ele mantenha as portas abertas por muitos e muitos anos até que eu e todos os meus amigos tenhamos aproveitado toda a festa do lado de cá e possamos ir pra saideira com ele do lado de lá.

Vai com Deus.

terça-feira, 10 de maio de 2011

E foste...

Tão cedo foste roubada de mim
Tão breve estiveste comigo
Tão só o mundo ficou
Sem ti não tenho mais terra natal
Não tenho mais porto
Não tenho mais feliz reencontro
Alegre regressar
Ponto almejado

És tudo uma caminhada sem fim
Em busca, sabe-se lá do quê
Olhos baixos
Passos ritmados por uma marcha de monotonia
Uma esperança leve e fugaz do que possa surgir na próxima esquina

Um olhar de morena mulher que me lembre o seu
Um riso destabocado de criança, como aquele que nunca mais será
Nunca mais será
Nunca mais terá a chance de ser
Nunca mais será nada além da remota chance de existir

Tantos futuros
Sorrisos
Fins de tarde em praias ao por do Sol
Manhãs chuvosas preguiçosas
Todos abortados
Todos natimortos

Eu
Me torno animal sozinho
Uma pedra no oceano
Um rei a ministrar um deserto
Um eco a correr por cômodos vazios

Poderia ter sido heroico
Mas não há mais o que salvar
Poeria ter corrido
Até o ar me faltar
As penar ficarem insensíveis
E os pulmões arderem
Mas onde chegar?
Para onde ir?

Você nunca mais estará lá
Nunca mais a minha espera
Nunca mais será meu lar

domingo, 7 de março de 2010

Criação

E então conquistaremos mundos
Dominaremos aldeias
Queimaremos cárceres
Devolveremos aos junstos o don da criação
E tiraremos tal poder das mãos dos falsos sábios

Não nos curvaremos diante de Deus algum
Seja ele justo, injusto, cristão ou pagão

Escreveremos nossos prórpios passos
Criaremos nossos prórpios livros
Teremos nossos próprios filhos
Educaremo-os como bem nos convir
Sem amarras
Nem laços
Nem falsas noções de moralidade

Viraremos as costas para toda igreja
Todo templo
E todo solo sagrado
Tendo como santo apenas aquilo que for "nós"

Não permitiremos que céus ou infernos nos abriguem
Nos julguem
Nos condenem
Nem a sua eterna danação
Nem a sua apática condescendência

Não seremos cúmplices de homem algum
Nos fartaremos de nossa própria sorte
Seja ela qual for

E não condenaremos nunca mais ninguem
Tenha sido qual for sua história

Abrigaremos malditos
Párias e justos
Tornaremos deles nosso teto
E criaremos assim nossa gente.

terça-feira, 2 de março de 2010

Continuação...





















E caminho noites a fio por essa terra
Terra fria, desolada, estéril
Terra sem alento, nem aconchego
Terra essa chamada terra sem ti
Em noites insones buscando tua presença
Buscando teu sorriso
Teus olhares e palavras...
Mas é tudo deserto, tudo desolação

Me junto aos Homens que ficaram no chão
Mirando as estrelas
Mas sem poder ve-las
No céu brilhar
Se voltaram para a escuridão
E se puseram a chorar

Caminho cego, surdo, sem fé
Caminho sem rumo
Procurando suas pegadas, na areia branca de praias
Onde antes andavas descalça, com vestidos e cabelos a esvoaçar
Ao vento do por do Sol

Mas sem tua presença, tudo que há é o vazio do mar
O negrume da noite
E a ausência do Sol
A esperar o nascer de um novo dia
A vinda de uma nova alvorada
Onde talvez regresses

E torne o mundo bonito outra vez.

domingo, 15 de novembro de 2009

A uma amiga

Não acredito que esse texto esteja muito bom ou seja muito rico em qualidade ou detalhes. Ele é só a descrição de uma amiga que surgiu na minha cabeça enquanto nós conversávamos num fim de tarde de domingo.
Espero que ela goste. Ando meio enferrujado nesse tipo de coisa e nem na minha melhor forma fui lá essas coisas...
Então tudo que posso fazer é brinda-los com minha inaptidão


















E ela era assim
Leve em seu corpo magro, forte e feminino
Pagava tributos aos caprichos de seu coração
Tinha os olhos vivos de quem já chorou rios por amores perdidos
Por abraços partidos
Por corações que para longe já haviam ido

O sorriso de quem esconde segredos
Ou algum mistério insondável
De alguma criança que acabara de cometer uma arte
E procura se redimir antes que a descubram

Tinha gestos impetuosos, audazes e apaixonados
Mas a alma calma que ainda lamentava a perda do amigo violão
Que aguardava num canto do quarto
Com o cavalete partido
A chance de ser consertado e voltar a consola-la

Carregava uma pena presa a orelha
Não como as índias o fazem
Mas como as moças que caminham no fim da tarde na praia
Descalças, com os pés na areia branca
Com vestidos e cabelos cor de trigo a esvoaçarem no vento que acompanha o por do Sol

Carrega a promessa dos anos que ainda estão por vir
E embora o passado ainda more em seus olhos
O futura costuma brincar em seu sorriso...

sábado, 28 de março de 2009

Vida

Já perdoei erros quase imperdoáveis,
tentei substituir pessoas insubstituíveis
e esquecer pessoas inesquecíveis. 

Já fiz coisas por impulso,
já me decepcionei com pessoas quando nunca pensei me decepcionar, mas também decepcionei alguém. 

Já abracei pra proteger,
já dei risada quando não podia,
fiz amigos eternos,
amei e fui amado,
mas também já fui rejeitado,
fui amado e não amei. 

Já gritei e pulei de tanta felicidade,
já vivi de amor e fiz juras eternas,
"quebrei a cara muitas vezes"! 

Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
já liguei só para escutar uma voz,
me apaixonei por um sorriso,
já pensei que fosse morrer de tanta saudade
e tive medo de perder alguém especial (e acabei perdendo). 

Mas vivi, e ainda vivo!
Não passo pela vida…
E você também não deveria passar! 

Viva!
Bom mesmo é ir à luta com determinação,
abraçar a vida com paixão,
perder com classe
e vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve
e a vida é "muito" pra ser insignificante.


Charles Chaplin

terça-feira, 17 de março de 2009

Parem os relógios...

Parem os relógios
Cortem o telefone

Impeçam o cão de latir

Silenciem os pianos e com um toque de tambor tragam o caixão

Venham os pranteadores

Voem em círculos os aviões escrevendo no céu a mensagem:

"Ele está morto"


Ponham laços nos pescoços brancos das pombas

Usem os policiais luvas pretas de algodão.


Ele era meu norte, meu sul, meu leste e oeste.

Minha semana de trabalho e meu domingo

Meu meio-dia, minha meia-noite.

Minha conversa, minha canção.


Pensei que o amor fosse eterno, enganei-me.

As estrelas são indesejadas agora, dispensem todas.


Embrulhem a lua e desmantelem o sol

Despejem o oceano e varram o bosque

Pois nada mais agora pode servir.

W.H. Auden

Crônica do Amor

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.

O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.

Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.

Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.

Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.

Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no
ódio vocês combinam. Então?

Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.

Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a
menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.

Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama
este cara?

Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.

É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura
por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.

Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?

Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.

Não funciona assim.

Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.

Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!

Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa."

 

Arnaldo Jabor

Redação Vencedora


Já fiz cosquinha na minha irmã só pra ela parar de chorar, já me queimei
brincando com vela. Eu já fiz bola de chiclete e melequei todo o rosto, já
conversei com o espelho, e até já brinquei de ser bruxo.

Já  quis   ser  astronauta, violonista, mágico, caçador e trapezista. Já me
escondi atrás da cortina e esqueci os pés pra fora. Já passei trote por
telefone.

Já  tomei banho de chuva e acabei me viciando. Já roubei beijo. Já Confundi
sentimentos. Peguei atalho errado e continuo andando pelo desconhecido.

Já  raspei   o  fundo  da panela de arroz carreteiro, já me cortei fazendo a barba apressado, já chorei ouvindo música no ônibus.

Já  tentei   esquecer  algumas pessoas, mas descobri que essas são as mais
difíceis de se esquecer. Já subi escondido no telhado pra tentar pegar
estrelas, já subi em árvore pra roubar fruta, já caí da escada de bunda.

Já fiz juras eternas, já escrevi no muro da escola, já chorei sentado no
chão do banheiro, já fugi de casa pra sempre, e voltei   no  outro
instante.

Já corri pra não deixar alguém chorando, já fiquei sozinho no meio de mil
pessoas sentindo falta   de  uma  só.  Já  vi  pôr-do-sol cor-de-rosa e
alaranjado, já me joguei na piscina sem vontade de voltar, já bebi uísque
até sentir dormentes os meus lábios, já olhei a cidade de cima e mesmo
assim
não encontrei meu lugar.

Já  senti medo do escuro, já tremi de nervoso, já quase morri de amor, mas
renasci novamente pra ver o sorriso de alguém especial.   Já acordei no meio da noite e fiquei com medo de levantar.

Já apostei em correr descalço na rua, já gritei de felicidade, já roubei rosas num enorme jardim.

Já  me   apaixonei  e  achei  que  era   para  sempre,  mas sempre era um
'para sempre' pela metade. Já deitei na grama de madrugada  e vi a Lua
virar Sol, já chorei por ver amigos partindo, mas descobri que logo chegam novos,
e a vida é mesmo um ir e vir sem razão.

Foram tantas coisas feitas, momentos fotografados pelas lentes da emoção,
guardados num baú, chamado coração. E agora um formulário me interroga, me
encosta na parede e grita: 'Qual sua experiência?'.

Essa  pergunta   ecoa  no  meu  cérebro:  experiência...   experiência...
Será  Que ser 'plantador de sorrisos' é uma boa experiência? Não!!! Talvez
eles não saibam ainda colher sonhos!

Agora gostaria de indagar uma pequena coisa para quem formulou esta
pergunta: Experiência? Quem a tem, se a todo momento tudo se renova?'

'Às vezes construimos sonhos em cima de grandes pessoas. O tempo passa e
descobrimos que grandes eram os sonhos e as pessoas pequenas demais para
torná-los realidade...'

O TEMPO e O TEMPO

"Com o tempo, você vai percebendo que para ser feliz com uma outra pessoa, você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela.

Percebe também que aquele alguém que você ama (ou acha que ama) e que não quer nada com você, definitivamente não é o "alguém" da sua vida.

Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você.

O segredo é não correr atrás das borboletas... é cuidar do jardim para que elas venham até você.

No final das contas, você vai achar não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você!"


A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

Ambos de Mario Quintana

Um dia você aprende...



Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma.

Você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança.

E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas.

E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.

E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.

Depois de um tempo você aprende que o Sol queima se você ficar exposto por muito tempo.

E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam...

E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando

e você precisa perdoá-la por isso.

Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.

Descobre que se leva anos para se construir confiança e apenas segundos para destruí-la,

e que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida.

Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias.

E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida.

E que bons amigos são uma família que nos permitiram escolher.

Aprende que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam, percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.

Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa, por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas,

pode ser a última vez que as vejamos.

Aprende que as circunstâncias e os ambientes tem influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos.

Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser.

Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto.

Aprende que não importa onde já chegou, mas onde está indo, mas se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve.

Aprende que, ou você controla seus atos ou eles o controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.

Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências.

Aprende que ter paciência requer muita prática.

Descobre que algumas vezes a pessoa que você espera que o chute quando você cai é uma das poucas que o ajudam a levantar-se.

Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas do que com quantos aniversários você celebrou.

Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha.

Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.

Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel.

Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não o ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.

Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem que aprender a perdoar a si mesmo.

Aprende que com a mesma severidade com que julga, você será em algum momento condenado.

Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte.

Aprende que o tempo não é algo que possa voltar atrás.

Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.

E você aprende que realmente pode suportar... que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais.

Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar...

E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!


William Shakespeare

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O Trem

E o tempo passou
Ele passa
Continua passando
Como um trem insensível
Inalterável e frio
Cada novo ano é como uma nova estação
Que mal visitamos e já deixamos para trás
Te deixando cada vez mais longe

E eu lembro de você
Acenando para mim naquela estação
Os braços estentidos
E eu sendo levado pelo trem
Mesmo sem querer
Mesmo querendo ficar apenas mais um minuto

Eu me vi partir
Com o rosto colado no vidro
Os olhos lavados de lágrimas
As mãos coladas no vidro frio e embaçado
Tentando segurar um pouco do teu mundo
Da tua presença
Do teu riso

Que aos poucos, mesmo sem querer
Mesmo contra a minha vontade
Eu vou deixando pra trás
Mantendo apenas em lembranças e recordações

Penso em todas as pessoas que ainda entrarão nas próximas estações
Em todas elas que não vão te conhecer
Que não vão saber a falta que você faz
O vazio que deixou

Elas trarão festas
Jantares, casamentos e batizados
E em nenhum deles você estará

Será apenas o teu lugar vazio a mesa
A sua sombra a pesar em tantos salões
O seu banco ao pó em tantas igrejas
A sua saudade a doer por trás de tantas alegrias
Sempre nublando sorrisos
Cobrando o seu quinhão de cada lágrima

Hoje você faz parte de mim
Apenas do meu mundo e nada mais
Daquele que existe apenas em minhas lembranças, em meu coração...

Hoje te vejo no espelho muitas vezes quando me olho
Sei que faz parte de mim e sempre fará
Mas mesmo assim o reflexo não é nada comparado a saudade daquela última estação em que estivemos juntos
E nem sabíamos quanto tempo nos seria roubado.


domingo, 4 de janeiro de 2009

Vou-me Embora pra Pasárgada


Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

 

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d'água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

 

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

 

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.



Manuel Bandeira

Carrego comigo


Carrego comigo
há dezenas de anos
há centenas de anos
o pequeno embrulho.
Serão duas cartas?
será uma flor?
será um retrato?
um lenço talvez?

Já não me recordo
onde o encontrei.
Se foi um presente
ou se foi furtado.

Se os anjos desceram
trazendo-o nas mãos,
se boiava no rio,
se pairava no ar.

Não ouso entreabri-lo.
Que coisa contém,
ou se algo contém,
nunca saberei.

Como poderia
tentar esse gesto?
O embrulho é tão frio
e também tão quente.

Ele arde nas mãos,
é doce ao meu tato,
Pronto me fascina
e me deixa triste.

Guardar em segredo
em si e consigo,
não querer sabê-lo
ou querer demais.

Guardar um segredo
de seus próprios olhos,
por baixo do sono,
atrás da lembrança.

A boca experiente
saúda os amigos.
Mão aperta mão,
peito se dilata.

Vem do mar o apelo,
vêm das coisas gritos.
O mundo chama!
Carlos! Não respondes?

Quero responder.
A rua infinita
vai além do mar.
Quero caminhar.

Mas o embrulho pesa.
Vem a tentação
de jogá-lo ao fundo
da primeira vala.

Ou talvez queimá-lo:
cinzas se dispersam
e não fica sombra
sequer, nem remorso.

Ai, fardo sutil
que antes me carregas
do que és carregado,
para onde me levas?

Por que não dizes
a palavra dura
oculta em teu seio,

carga intolerável?

Seguir-te submisso
por tanto caminho
sem saber de ti
senão que sigo.

Se agora te abrisses
e te revelasses
mesmo em formas de erro,
que alívio seria!

Mas ficas fechado.
Carrego-te à noite
se vou para o baile,
De manhã te levo

Para a escura fábrica
De negro subúrbio.
És, de fato, amigo
Secreto e evidente.

perder-te seria
perder-me a mim próprio.
Sou um homem livre
mas levo uma coisa.

Não sei o que seja.
Eu não a escolhi.
Jamais a fitei.
Mas levo uma coisa.

Não estou vazio
não estou sozinho,
pois anda comigo
algo indescritível.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 30 de novembro de 2008

Separação

Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é história do mundo. Ela o olhava com um olhar intenso onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles.

Viu-a assim por um lapso, em sua beleza morena, real mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação.

Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de secionar aqueles das mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se multo longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce.

Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela.

Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias - um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas.

De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde…

Vinicius de Moraes